Eixo invisível entre intestino, rins e coração pode prever doenças cardiovasculares
Estudo internacional identifica metabólitos produzidos pelo microbioma intestinal associados a alterações precoces na função cardíaca e renal — descoberta pode abrir caminho para prevenção personalizada de doenças cardiovasculares.

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Um amplo estudo internacional publicado nesta quinta-feira (5), na revista científica Nature Communications, revela evidências de um sistema biológico integrado — um “eixo intestino–rim–coração” — capaz de antecipar o risco futuro de doenças cardiovasculares. A pesquisa mostra que moléculas produzidas por bactérias do microbioma intestinal podem sinalizar alterações precoces na função cardíaca e renal mesmo em indivíduos considerados metabolicamente saudáveis.
O trabalho foi conduzido por cientistas de instituições como Imperial College London, Universidade de Leipzig, Universidade de Copenhague e centros europeus e canadenses ligados ao consórcio MetaCardis. Os pesquisadores combinaram análises de microbioma intestinal, metabolômica sanguínea e indicadores clínicos para mapear interações entre microrganismos intestinais e sistemas cardiovasculares e renais.
Segundo o estudo, metabólitos derivados do metabolismo bacteriano de aminoácidos aromáticos — especialmente fenilalanina e tirosina — apresentaram associação significativa com marcadores de função cardíaca e renal no organismo humano.
“Esses resultados indicam que o microbioma intestinal participa de um diálogo metabólico complexo com o organismo humano, influenciando a fisiologia do coração e dos rins”, afirmam os autores no artigo.
Evidências já em indivíduos saudáveis
Para investigar as fases iniciais do risco cardiovascular, os cientistas analisaram 275 participantes metabolicamente saudáveis do estudo europeu MetaCardis. Esses indivíduos não apresentavam obesidade, diabetes tipo 2 nem doença cardíaca isquêmica.
Apesar disso, os pesquisadores identificaram variações sutis na pressão arterial, metabolismo da glicose e composição do microbioma intestinal, sugerindo uma possível transição gradual de um estado saudável para a disfunção metabólica.
Os dados mostraram que certas características do microbioma estavam associadas a dois marcadores clínicos importantes: proANP (pro-peptídeo natriurético atrial), ligado à função cardíaca e à regulação da pressão arterial e eGFR, indicador da taxa de filtração glomerular e da função renal.
“Observamos que metabólitos relacionados ao microbioma intestinal estavam ligados simultaneamente a indicadores de função renal e cardíaca, sugerindo a existência de um eixo biológico interconectado”, explicam os autores.
Confirmação em outra população
Para testar se essas assinaturas metabólicas também poderiam prever doença cardiovascular no mundo real, os pesquisadores analisaram dados de 8.669 participantes do Canadian Longitudinal Study on Aging, no Canadá.
Os resultados mostraram que os níveis iniciais desses metabólitos estavam associados à incidência futura de doenças cardiovasculares, reforçando a hipótese de que alterações no microbioma intestinal podem preceder a manifestação clínica da doença.
Nova fronteira para prevenção
Doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, e os cientistas afirmam que identificar sinais precoces é fundamental para reduzir seu impacto global.
“Detectar alterações metabólicas antes do aparecimento da doença pode permitir estratégias de prevenção muito mais precisas”, afirmam os pesquisadores.
Segundo a equipe, a descoberta abre caminho para novas abordagens de medicina preventiva baseada no microbioma, incluindo intervenções dietéticas, probióticos ou terapias metabólicas direcionadas.
Se confirmadas em estudos adicionais, essas descobertas sugerem que o intestino pode funcionar como um sistema de alerta biológico para doenças cardiovasculares — décadas antes dos sintomas aparecerem.
Referência
Chechi, K., Chakaroun, R., Myridakis, A. et al. Um eixo microbioma intestinal-rim-coração preditivo de futuras doenças cardiovasculares. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69405-0